quinta-feira, janeiro 31, 2008

Record, passaportes e asneiras

O jornalismo em Portugal é como tudo o resto, medíocre, serviçal, dependente. E corporativo. Dentro da mesma redacção, basta um dos gurus de serviço tomar partido em determinado assunto e logo todo o jornal se assume como massa associativa e acrítica. Há excepções? Claro que existem sempre excepções, mas diluem-se e desaparecem no mar imenso das unanimidades. Vejamos, por exemplo, o ‘caso Meyong’, tornado caso e despoletado pela brilhantina encaracolada de um dos seus eminentes colunistas: pois bem, a partir da denúncia e da imediata condenação do Belenenses, começaram a surgir notícias tendenciosas em apoio da tese inicial... tese que já foi contestada pelo bom senso e por pessoas que têm obrigação de saber alguma coisa do assunto.

A última tentativa foi ontem publicada comparando o ‘caso Meyong’ ao de Vitinha, jogador que pretende alinhar pelo Feirense, mas que se viu impedido de o fazer pela nossa estimada FPF alegando que o jogador já tinha jogado pelo Beira-Mar e também pelo clube-satélite, o Avanca. O Feirense seria assim o terceiro Clube representado na mesma época. E pode ler-se no Record: “O facto de existirem precedentes com atletas emprestados que já tinham actuado pelas equipas B e satélites do clube de origem, pelos vistos nem sequer foi ponderado”! O ponto de admiração é nosso e confirma uma série de contradições, a saber:
Em primeiro lugar Meyong não fez a sua terceira inscrição dentro da mesma Federação, porque jogou em Espanha e jogou em Portugal, o que é um pouco diferente, especialmente se atendermos à ‘ratio legis’ da controversa norma da FIFA. Em segundo lugar, a ser verdade o que se passou com Vitinha, o liminar indeferimento federativo, havendo precedentes, é típico de um organismo fraco e inútil. E lança o jogador no duplo desemprego… de direito e de facto!
Mas se calhar, e ao contrário do que o citado jornaleco pretendia, esta célere tomada de posição da FPF, vem inocentar ainda mais o Belenenses, porque confirma o óbvio, ou seja, que a responsabilidade do licenciamento cabe a quem pode deferir ou indeferir as mesmas licenças. No caso do Belenenses a Federação deferiu, e ponto final.

Entretanto, e para aumentar a confusão, vem a descobrir-se que no ‘passaporte’ de Meyong, documento decisivo para inscrever e licenciar jogadores, uma espécie de certidão de narrativa completa do respectivo percurso futebolístico, descobriu-se, dizia, que só constam duas inscrições nesta época – Albacete e Belenenses! Logo, Meyong podia e pode jogar pelo Belenenses, não há qualquer ilegalidade visível. E então o Levante?! Como é que jogou os tais 12 minutos pelo Levante, no início do campeonato espanhol?! Jogou sem estar inscrito?! Aceitam-se palpites, mas que na realidade já não interferem com os “seis pontos” que nos queriam escamotear.
Portanto, e até novas ordens, Meyong deve poder jogar pelo Belém, enquanto a FIFA, a Real Federação Espanhola, e a Federação Portuguesa de Futebol (provavelmente na companhia do Levante) não encontrarem uma solução melhor. E já agora, uma solução que respeite o direito ao trabalho, salvaguardada que esteja a verdade desportiva. Depois de se entenderem... telefonem ao Record, para sossegar o Rui Santos, e não só.

E não só, porque houve muito boa gente que se precipitou e que desatou a dizer, e a fazer, asneiras. O meu Clube também enfia a carapuça, também deu inicialmente alguns tiros nos pés.
Espero que daqui para a frente... como diz a canção... tudo vai ser diferente... Será?!

Saudações azuis.

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