quinta-feira, junho 23, 2005

Enigmas

Uma das coisas que nunca percebi, face à situação presente, era qual a necessidade de fazer subir e, portanto descer, três clubes à Liga de Honra, ano após ano!
Que vantagens imperiosas de renovação, ou que objectivos de desenvolvimento estratégico estarão na base do sistema vigente?
Que clube ou que região do País terá experimentado alguma alteração substancial, nomeadamente em termos de estrutura associativa, para justificar que “novos emblemas” precisem de chegar à ribalta?
Não será isto, de novo, o prolongar da hipocrisia e do artificialismo, sem qualquer vantagem para o desenvolvimento e transparência do nosso futebol profissional?
Será que com o actual sistema se pretende confinar a Super liga às áreas metropolitanas de Lisboa e Porto? Ou será que, perversamente, o objectivo é apenas evidenciar a desertificação do País, colocando em cheque o regime vigente?
Enfim, são tudo enigmas em aberto!
Tempos houve, em que desciam apenas dois clubes ao escalão secundário enquanto o antepenúltimo disputava uma “liguilla” com os segundos das zonas norte e sul; houve outros esquemas e modalidades, mas sempre se tomou em consideração que o futebol português, atendendo à sua peculiar estrutura associativa, não justificava muita renovação. Também se tinham em atenção, o que hoje curiosamente não acontece, a estabilidade e garantia de investimentos, sem as quais o artificialismo competitivo ainda seria maior.
Sem enigmas, todos percebem que a (re)construção e o desenvolvimento sustentado dos chamados clubes médios, exigiria uma política que desse algumas garantias ao investimento nesses clubes, única possibilidade para encurtarem o fosso que os separa dos três Grandes, já que são clubes que ainda têm massa associativa própria e, sendo assim, têm algumas condições de desenvolvimento. Ora isto exigiria alguma estabilidade competitiva. Com três clubes a descer isto não é possível. Aquilo a que assistimos é uma luta de vida ou de morte entre praticamente todos os quinze clubes para não descerem, e o que isso significa – falência imediata para quem fez alguns investimentos.
Existe outra “alternativa” e que parece agradar aos nossos “dirigentes” porque afinal é o que se passa – ninguém investe, e os quinze clubes vão esperando pelas sobras ou “empréstimos” dos grandes para formarem os seus plantéis! É aquela promiscuidade e confusão que nós gostamos – para depois podermos culpar os árbitros. Por fim, se a coisa falha, podemos sempre recorrer à crise do Brasil... (dos que votaram no Lula mas não querem viver com ele) e contratar uns “caçulas prometedores”...
Mas atenção, os Grandes também já não investem – vivem do Orçamento do Estado e de esquemas “criativos” (eu diria permissivos) de “trocas e baldrocas” com os clubes pequenos, ou então, andam na pista de duvidosos “magnatas” de Leste!
E ocorre-me outro enigma – Com a fronteira sul defendida pelo Vitória de Setúbal, e com o Vitória de Guimarães a ocupar, o honroso título de bastião “interior” da Super Liga, não estaremos sem o saber, a regressar ao Condado Portucalense?! Ou na melhor das hipóteses, a construir um novo País, que podemos baptizar de “Portugal Litoral... mas pouco”?!
Enfim, de enigma em enigma... acabo sempre a falar sozinho.

Nota (um bocadinho reaccionária):

  • Apesar de tudo, no tempo de Salazar, esta situação dificilmente aconteceria! O ditador, que prezava sobretudo a forma (mais precisamente, o cenário), face à perspectiva de o campeonato nacional se disputar só, no que designámos por “Portugal Litoral... mas pouco”, chamaria de imediato o Ministro do Interior e dava-lhe um prazo para resolver o assunto: imagino as instruções – “olhe que eu quero campeonato em todo o País”.
  • Pois é... por essa altura, havia o Sporting da Covilhã, o Lusitano de Évora, o Olhanense... Pois é... por essa altura, havia alguma indústria na Covilhã, havia lavoura no Alentejo, existiam fábricas de conservas no Algarve... Eu sei que não se pode ter tudo, mas qualquer dia começam a ter saudades do homem...
  • Eu cá, tenho uma ideia melhor – podíamos alugar a parte do território que abandonámos... à Espanha. Tenho a certeza que aquilo progredia e teríamos em breve clubes daquelas regiões na Super Liga!

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