sexta-feira, abril 17, 2015

O bloqueio

O nosso futebol corre as mil maravilhas, há até quem diga que é um exemplo para o resto! Eu tenho outra opinião, a mim faz-me lembrar um filme soviético com actores sicilianos. Já agora aproveito para dar uma ideia de como a coisa funciona:

Primeira regra:
Os jogadores portugueses, aqueles onde existe algum talento, pertencem basicamente a três clubes, a que resolvi chamar - ‘clubes do estado’. A triagem dos jogadores é feita pelo mesmo estado, através das selecções juvenis e logo aí se constituem direitos de propriedade sobre os mais promissores. Como é muita gente e há que garantir que nenhum escapa, muitos miúdos continuam a crescer nos clubes de origem mas já estão comprometidos. Os melhores seguem depois para as respectivas equipas B e os que sobram são emprestados a clubes ‘concorrentes’ na primeira Liga. Pus aspas na concorrência porque como se percebe neste ramo de actividade só há três concorrentes.

Segunda regra:
Os jogadores assim formados (e rodados) em outros clubes servem para ser vendidos ou trocados em negócio vantajoso. Poucos ou nenhuns ascendem ao team principal dos três clubes referidos. A razão é simples: uma vez que os três se propõem ombrear com os melhores clubes da Europa, e nisso são vigorosamente apoiados por quem manda no futebol, não podem arriscar na formação de um craque caseiro e assim vão ao mercado adquirir jogadores já feitos, de classe internacional, mantendo plantéis para os quais não dispõem de receitas correspondentes. A venda de jogadores ajuda, daí a necessidade de proteger o monopólio ou oligopólio existente, mas a verdadeira solução tem sido o apoio incondicional do erário público, seja das autarquias, seja dos bancos falidos ou intervencionados pelo estado. A bem da nação, já se vê.

Terceira regra
Esta regra é uma consequência óbvia da segunda: atendendo a que os direitos desportivos dos jogadores portugueses, aqueles que têm mercado, estão nas mãos de Benfica, Sporting e Porto, os outros clubes, salvo raríssimas excepções, pouco lucram com os negócios efectuados. Quando muito umas migalhas pela formação. Ora este tratamento, tão desigual, só faz sentido em se tratando de clubes do estado e à luz da constituição soviética que temos. Tudo pela nação, nada contra a nação.

Quarta regra
Esta é a regra que coroa todo o edifício do futebol, a regra que define a filosofia vigente: considerando que temos três clubes que representam 99% do universo popular, associativo, etc., não se justifica mantermos um estádio nacional, passaremos a ter três, em concessão. A selecção fica assim melhor servida e ainda pagaremos o aluguer, pois estaremos mais uma vez a dar dinheiro aos mesmos. De vez em quando, para estágios, selecções jovens ou femininas alugaremos os outros estádios do Euro que estão às moscas todo o ano.

Efeméride: Em setenta anos de campeonato nacional só dois clubes conseguiram romper o bloqueio: - Belenenses e Boavista!



Saudações azuis

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