quarta-feira, junho 20, 2007

Vicente

“Ele, sim, mordeu o pó da paixão. Nunca vestiu outra camisola senão aquela que tem a Cruz de Cristo. Um amor incomensurável que o leva a nem sequer se sentir frustrado por nunca ter sido campeão. Vicente Lucas é eternamente grato ao Belenenses. E irrita-se se alguém lhe disser que o clube pode fazer mais por ele, como o Benfica faz por Eusébio. Vicente é de valores, fiel a princípios. Jamais aceitou ser Matateu II por ser irmão do astro que levou ingleses à designação da Oitava Maravilha do Mundo. Prefere ficar para a história como a sombra de Pelé, magriço de 1966, simplesmente Vicente”!

Texto de abertura de uma longa entrevista feita a Vicente Lucas pelo jornalista Paulo Jorge Neves, e publicada no jornal "A Bola" de hoje, dia 20 de Junho de 2007. Com a devida vénia, transcrevo alguns excertos:

“Vive bem?
- Vivo como quero. O clube paga-me, ganho bem no Belenenses. Não tenho qualquer problema de dinheiro, nunca tive. Quando era jogador o que ganhava era suficiente: três contos (quinze euros) por mês, que depois passou para cinco contos (vinte e cinco euros). Era um bom ordenado. Um Wolkswagen custava 57 contos e a letra mensal 500 paus. O dinheiro não mandava em tudo. Não tenho uma vivenda mas tenho tudo na minha casa. Como o que quero.
O dinheiro nunca foi o mais importante para si?
- Nunca lhe liguei nenhuma.
Mora sozinho. O que faz no dia-a-dia?
- Acordo às 13 horas. Por volta das três, quatro da tarde saio, apanho o autocarro e venho ter com os meus amigos no Restelo. Sou muito acarinhado pelos sócios, gostam de mim, é aqui a minha casa.
É boa a relação com o seu filho Vicente?
- O meu filho é meu filho. Um bom filho. Em minha casa tem o quarto dele. Vai e vem, traz e leva coisas. Vemo-nos constantemente. Quando tem algum tempo almoça e está comigo um bocado.
Ele na escola fazia lembrar o Vicente mas nunca optou pelo futebol de onze. Porquê?
- Não quis. Não se pode obrigar os filhos a escolher esta ou aquela profissão, este ou aquele clube. Digo-lhe mais, nem sei qual é a equipa pela qual torce. Nem procuro saber. Não me meto nisso.
Os seus outros familiares procuram-no?
- Tenho pouca família. Sobrinhos e primos. Visitam-me e interessam-se por mim…a Argentina, filha de Matateu é uma boa sobrinha.
O Belenenses fez tudo o que poderia ter feito por si?
- Quem me socorreu quando tive o acidente de viação e fiquei sem a vista direita? Quem tratou da minha operação ao fémur? Quem?
Está a ser humilde de mais.
- Ninguém sabe a minha vida. Vivo à minha maneira. Com ou sem dinheiro. Os outros que vivam à sua.
Olha para o Eusébio como embaixador do Benfica e sente que é tão importante e bem tratado aqui no Belenenses?
- É igual, sou tão bem tratado como Eusébio na Luz.
Não sou embaixador. Disseram-me há uma data de anos para ser mas eu não quero. Embaixador para quê? Não posso andar com o clube para todo o lado, como já andei. Já viu: diga-me: o que é que eu vou fazer para um hotel com a equipa?
(…)
Alto Mahé era uma fábrica de talentos. Lembra-se de Coluna?
- Morava ao lado da minha casa. Era quase família. Bom jogador. Vim na mesma altura que ele mas ele chegou primeiro. Vim de barco, ele apanhou avião. Não jogámos na mesma equipa. Ele era do Desportivo e eu do 1º de Maio. Fomos dos primeiros negros a jogar em equipas de brancos da Associação de Lourenço Marques. Naquela altura havia isso, veja lá. Depois saiu a lei que podíamos, que tinha acabado a separação.
Desentendeu-se com Coluna no jogo com os coreanos em Inglaterra. Conte como foi.
- Aquilo estava a correr mal. O Coluna chegou ao pé de mim e disse: Estás a marcar quem? Respondi-lhe logo: E tu? Quem estás a marcar? Não nos estávamos a entender. Eram todos muito, muito parecidos. E eles a meterem golos…
(…)
Nunca ganhou o campeonato. É a sua maior frustração?
- Fui vice-campeão, ganhei a Taça de Portugal e duas Taças de Honra, fui terceiro no Mundial-66. É assim…Não fui campeão, e então? Não há que chamar-lhe frustração não há que lamentar. Fizemos o melhor que sabíamos.
A maior alegria foi a Taça, em 1960?
- Foi, juntamente com o terceiro lugar no Mundial.
O que lhe vem mais à memória do Mundial de 1966?
- Estarmos no hotel em Manchester, apurados para as meias-finais, e o Otto Glória mandou-nos fazer as malas. Tínhamos que ir jogar a Londres, quando a Inglaterra é que tinha que ir a Manchester. Fomos de comboio. Desgastaram-nos.
Matateu…
- Não falo do meu irmão. Vão logo dizer que o estou a defender. Desculpe-me.
Não faz mal. Porque é que não gosta dos jornalistas?
- Não é dos jornalistas. Detesto aparecer.
(…)


















Diz-se que geralmente ‘secava’ Pelé. É positivo o saldo dos confrontos com aquele que é considerado o melhor jogador de sempre?
- Joguei contra ele seis vezes. Duas vitórias, dois empates e duas derrotas. Não fiz nada de especial, nunca o meti no bolso, como gostam de dizer.
OK. Qual foi o jogo em que lhe deu mais trabalho?
- Todos pensam que foi no Mundial. Foi difícil marcá-lo em todos os jogos. Mas vocês só falam de Pelé. Encontrei jogadores anónimos que fintaram, marcaram golos, fizeram tudo comigo. Desses ninguém fala.
Quem era mais difícil de marcar: Pelé ou Eusébio?
- São jogadores com diferentes características e posições. O Eusébio como vinha de trás e podia aparecer em todo o lado, marcava-o à zona. O Pelé como ficava lá ao pé de mim, não lhe podia conceder um milímetro, se fosse á casa de banho, ía com ele.
É verdade que Pelé levou porrada até dizer chega?
- Não vi nenhuma, sem ser aquela do Morais naquele famoso lance. As pessoas estão sempre a defender o Pelé mas esquecem-se que ele era um jogador malandreco. A jogar metia o pé por cima da bola e mais nada”.

E agora...”corta Vicente” famosa expressão que entrou para o domínio coloquial em homenagem à destreza, oportunidade e capacidade de desarme desta nossa pérola moçambicana. No meu caso porque o texto já vai longo e pode ser lido na íntegra, como acima afirmei, na edição de hoje do jornal “A Bola”.
Saudações azuis.

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