sexta-feira, fevereiro 17, 2006

As cores da selecção

“Portugal fashion” é um artigo de fundo escrito por José Manuel Delgado no jornal ‘A Bola ‘ de 15/02/06, onde o autor se mostra surpreendido com os novos equipamentos da selecção nacional de futebol, que segundo o seu entendimento se afastam excessivamente das ‘cores de Portugal’!
Na linha do erro jacobino de confundir a parte com o todo vai desfiando uma série de argumentos que convinha esclarecer, quanto mais não fosse para afastar alguns fantasmas que imagino devem atormentar o espírito do antigo guarda-redes.
Um exemplo: diz Delgado que ‘as cores oficiais de Portugal são o verde-escuro e o escarlate, representados na bandeira nacional por dois quintos do primeiro e três quintos do segundo’!
Ora bem, a bandeira do partido republicano que em 1910 foi imposta aos portugueses por um regime não plebiscitado, é de facto verde e encarnada naquela proporção. Alguns portugueses partidários da revolução de Outubro, como Guerra Junqueiro, consideraram um erro tremendo substituir o Azul e Branco Fundador por quaisquer outras cores que não tinham nada a ver com a nossa verdadeira identidade histórica.
Acresce que as cores do partido republicano haviam sido inspiradas na bandeira da União Ibérica, solução que o partido sempre acarinhou, e sendo assim, haveria aqui outro fortíssimo argumento que desaconselhava aquela escolha.
O cronista Delgado vai buscar cores e insígnias à Ala dos Namorados, às Descobertas, a alguns episódios de lutas fratricidas, escolhidos a dedo, para justificar o injustificável: o erro verde e encarnado.
Igual afã percorreu todo o Estado Novo na tentativa de esconder ou de fazer esquecer a triste génese da bandeira republicana – uma guerra civil! Como tal, um símbolo de divisão, e face aos elementos escolhidos e derrogados, uma afronta aos nossos Maiores.
Percebendo isso, inventou para a selecção nacional de futebol uma camisola grenat (o tal escarlate de Delgado), com calções azuis e meias azuis! E foi mais longe, o equipamento alternativo constava de camisola branca com as quinas ao peito, calções azuis e meias azuis! Foi assim que jogámos muitas vezes no Mundial de 1966.
Delgado não se lembra, mas essa história das cores verde e encarnada da Ala dos Namorados foi desenvolvida na Mocidade Portuguesa. Estamos a falar de chefes de castelo e chefes de quina.
A terceira República, neste aspecto tem sido mais frontal e começou por assumir o equipamento verde e encarnado. Mas já se notam sinais de querer de novo fugir desse anátema histórico, e resolveu primeiro escurecer o encarnado e de seguida envelhecê-lo até...ao bordeaux! O equipamento alternativo é...preto!
Em minha opinião são os sinais dos tempos, de um País de luto, a fugir de si próprio, e... de uma quarta República que aí vem, a querer assemelhar-se à segunda!
Esqueci-me entretanto de Delgado! Afinal em que é que ficamos?
Como é que podemos explicar-lhe que a sua bandeira não tem nada a ver com a minha, que as cores da sua selecção, idem, idem, aspas, aspas. É que sabe, meu caro Delgado, naquele cinco de Outubro, eu estaria no outro lado da barricada, com outros portugueses, e apesar de termos perdido não somos obrigados a adoptar a bandeira do vencedor. Pela simples razão que não lutámos contra Portugal nem contra os seus símbolos mais perenes. Lutámos por uma forma de regime que nos fez como Pátria livre e independente e imagine-se, passados tantos anos, continuamos a acreditar que é o regime que melhor serve Portugal!
Nestas condições, porque razão teríamos que mudar de bandeira? Ainda por cima quando sabemos que o verde e encarnado nos foram impostos contra o azul e branco, cores que se situam para além de qualquer regime ou facção?!
Veja se percebe: para que a sua selecção seja também a minha selecção, não podemos adoptar símbolos que nos dividam. A Republica sabe isso, e essa é a razão porque anda, tal como Você, a repescar flâmulas e estandartes, a inventar cores, a apostar no esquecimento ou a tentar compor a memória! Não vale a pena. Mais tarde ou mais cedo vamos ter que corrigir o erro e restaurar as cores e os símbolos de Portugal. Pelos exemplos que a história recente nos tem dado, vide União Soviética e Jugoslávia, é melhor que seja mais cedo.
Na dúvida, tem a palavra o Fundador.

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