quarta-feira, agosto 24, 2005

Departamento de Formação

É possível, como temos visto, ter um plantel formado por jogadores contratados com base numa prospecção cuidada como o orçamento do clube assim exige.
Acredito até que seja possível que o clube atinja um patamar elevado, ou seja, que os objectivos sejam cada vez mais próximos das expectativas dos adeptos mais exigentes, com base nesta politica. Bastando para isso que os jogadores contratados a baixo custo ou a custo zero sejam lançados e contribuam não só desportivamente, durante a época ou as épocas que permanecem no clube, mas também com receitas extraordinárias que resultem da sua transferência para outros clubes no final da época.
As expectativas elevadas que temos para esta época aliada às dificuldades associadas ao elevado investimento necessário podem constituir argumentos que justifiquem o refrear dos ânimos no que diz respeito ao desenvolvimento do departamento de formação.
No entanto a minha opinião sempre foi no sentido de se apostar na formação e acho que o Belenenses devia aproveitar as condições excepcionais que tem.

Por isso acho útil reproduzir dois artigos que li recentemente e que me fizeram reflectir novamente sobre o assunto.

“Que é que se passa” entrevista de ANTÓNIO TAVARES-TELES publicada no Jornal “Ojogo” de 12 de Agosto de 2005

"Em vez de jovens portugueses, os nossos clubes parecem preferir contratar estrangeiros"
(…) Aurélio Pereira é, entre as funções de treinador e de coordenador de departamento, leão há cerca de trinta anos. Para além de ter sido jogador verde-branco e ser uma das pessoas com quem mais útil e interessantemente se pode falar de formação.

(…)
- Mas quando nasceu o departamento de formação?
- Pode dizer-se que foi com o surgimento de alguns torneios para miúdos, sobretudo o Onda Verde do Sporting, no tempo de João Rocha. Aí por 1975/1976. Com miúdos de 8, 10, 11 anos. Foi a partir daí que nasceu essa área dentro do clube e que eu passei a coordená-la. Até que, em 1987-88, veio um treinador inglês para essa área e foi criado, no tempo de Amado Freitas pois, o departamento de recrutamento, para onde eu transitei. Porque achei muito interessante essa tarefa, para a qual montei uma estratégia, que ainda hoje, como se tem podido ver, dá os seus frutos.
- Sim, és considerado um grande craque na matéria...
– Embora o melhor elogio que me possam dar é reconhecer que sei rodear-me das melhores pessoas para trabalhar comigo. Porque são pessoas com paixão pelo que fazem, e quando se tem paixão pelo que se faz, o que importa é isso, não é o dinheiro que se possa ou não ganhar.
- Entretanto, foram despontando grandes talentos. Vista a coisa da frente para trás, o João Moutinho, por exemplo...
- Mas, neste momento, também o Beto, o Miguel Garcia, o Custódio, o Carlos Martins, o Nani, o Varela, o Semedo, o Miguel Veloso...
- Para já, indo um pouquinho mais atrás, não falarmos de Hugo Viana, do Ricardo Quaresma, do Cristiano Ronaldo...
– Exacto. E do Luís Figo, do Peixe, e por aí fora. E também, deixa-me inclui-lo aqui e com todo o gosto, o Dani, que chegou ao Sporting com oito anos. E, mais para trás, o Litos...
- O Paulo Futre...
– Sim, o Paulo Futre, que foi o primeiro grande jogador a sair do departamento. E aliás o primeiro, igualmente, a sair para o estrangeiro. Foi um pioneiro em tudo. Era um miúdo e um jogador extraordinário, hoje sem preço. Até pelo desejo que tinha de jogar, pelo prazer de fazê-lo, pelo vício que tinha de bola. E pela ambição de ser verdadeiramente um grande craque.
(…)
- Em Portugal já se investe o suficiente na formação?
- O Sporting sempre foi um clube com vocação formadora, mesmo com as dificuldades que existiam em matéria de infra-estruturas. Mas podemos orgulhar-nos do projecto-Roquette e de todas as pessoas que contribuíram e contribuem para ele, com o presidente Dias da Cunha e o naipe de pessoas que hoje com ele trabalham. Porque todos contribuem para as vitórias e as derrotas, não são só os que estão no banco ou em campo. Infelizmente, e ainda no que diz respeito às classes mais jovens, também já só se exigem vitórias, e muitas vezes a pressão assim exercida sobre os miúdos não é a melhor forma de os ajudar.
- Diz-se o mesmo relativamente ao futebol profissional...
– E é verdade! Vê que felizmente os nossos treinadores têm lançado miúdos no primeiro "team", e só lhes louvo a coragem com que o têm feito. Porque é preciso coragem para lançar um Custódio, um João Moutinho, etc. etc., por melhores jogadores que eles se mostrem. Assim, o José Peseiro merece, de resto por essas e por outras, uma grande palavra de estímulo da minha parte. Se os adeptos realizassem o incentivo que é, sobretudo nos maus momentos, o aplauso que possam dispensar à equipa...
- Muitos bons talentos a rebentar por aí mesmo fora do Sporting?
- Com certeza! Mas o que é difícil de entender é que a gente vá ver um torneio de miúdos e não estejam lá portugueses a assistir, mas sim representantes de clubes estrangeiros, que pelo visto percebem melhor do que nós os talentos que criamos por cá. Só que os nossos clubes parecem preferir contratar estrangeiros, se calhar porque as suas massas associativas também é o que querem, em vez de quererem ver projectados os nossos talentos...

“PONTO FINAL”, artigo de HÉLIO NASCIMENTO publicado no jornal “Record” de 16 de Agosto de 2005

Um exagero
Contabilizando os jogadores estrangeiros recém-chegados a Portugal e prontos a estrearem-se na SuperLiga podiam-se fazer sete equipas. Com aqueles que por certo aterrarão por aí em Dezembro e Janeiro não será descabido avançar com a ideia de que temos malta para construir metade (!) dos conjuntos em acção na principal prova do futebol português. Um tremendo exagero.
Numa altura em que a palavra formação surge, repetidamente, no vocabulário de quase todos os dirigentes da nossa praça, nunca foi tão pertinente parar, pensar e lançar a questão: que raio de demagogia é esta?! E por muitas razões que os envolvidos aleguem em sua defesa, nenhuma terá peso suficiente para justificar o que quer que seja. Um bom assunto, também, para a Liga se debruçar...
As equipas do Marítimo, V. Setúbal, Penafiel e até do V. Guimarães encabeçam a lista. Mas o maior dos exageros diz respeito ao emblema do Funchal: em 24 jogadores apenas 5 são portugueses! Uma relação que não devia existir, que devia ser proibida. E os madeirenses até têm uma equipa B...”

Portanto e em conclusão é necessário que não percamos o ânimo e prossigamos o previsto projecto de formação belenense.

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